Por
Willian Rodrigues
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| Foto: divulgação/GloboPlay |
A força crescente que preenche a tela e se transforma na imensidão do mar, refúgio para as mentes cheias de preocupações, tem efeitos e mistos de sensações. Há infinito e há vazio. A potência feminina de Eunice é a mesma de Fernanda Torres. A mãe que engole o choro, não derruba uma lágrima nem em frente aos espectadores e nem em frente aos filhos, é o retrato mais fiel da mulher brasileira que o cinema nacional já narrou.
As inúmeras possibilidades do que pode ter acontecido a Rubens deixa tanto espectador como todas aquelas pessoas retratadas tão desconfortáveis que não existe forma de comunicar o que pode ter acontecido. Por isso há um trato de silêncio sobre o acontecido entre família e espectadores.
Ser arrancado do seu lar, ter seu pai ou marido arrancado do seu lar, é a sensação mais desesperadora e insegura que uma família pode vivenciar. Há segurança em ter policiais ou militares entrando na sua casa? O malabarismo para que nada de errado seja perguntado, para não causar irritações a quem invade aquela residência é a dança mais perigosa e silenciosa já construída. Eunice aparece descalça e o mesmo silencio dos seus passos é o que se constrói a partir daí e a acompanha até a última cena do filme.
O filme te ensina, nos primeiros trinta minutos, o funcionamento daquela família. A personalidade dos filhos, os momentos de lazer a quem pode tê-los remontam a uma realidade muito simples. Há estrutura familiar, admiração e muito afeto. E depois não há nada além de vazio. Se é a presença de Rubens, a luta silenciosa de Eunice pela justiça ou se é o desejo dos filhos em dar continuidade àquela vida completa, que continuam aqui, não sei explicar. Mas a angústia causada por aquela violência silenciosa sei que continua aqui.
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| Foto: arquivo pessoal/Divulgação/Globoplay |
Memórias são construídas e guardadas. A caixa da memória faz companhia à nova rotina da família: poucas vezes visitada, e Eunice parece sofrer na prática as causas disso. Os efeitos do trauma e da luta para reestruturar sua família parecem ter sido causadores do Alzheimer que a acompanha até seus últimos dias. Dias esses com o vazio. “É preciso dar um jeito”.
Tudo é tão incerto, inseguro e duvidoso. A democracia vira a piada que afeta a asma; quando tenta-se puxar o ar e sente-o afogando teu corpo. Eunice puxa o ar, mas ele não vem. Assim acontece com o espectador. “Não falamos disso aqui”, diz uma das filhas à irmã mais velha, que chega querendo saber mais sobre as prisões e o sumiço.
A dupla de Fernandas retratam o poder da mulher brasileira. Quantas precisam, diariamente, engolir o choro, retomar a vida, se virar em várias para manter a família bem? Se antes nem era preciso se preocupar com dinheiro, a impossibilidade de tocar na própria conta a impulsiona a tomar decisões necessárias. Se formar aos 48 anos, manter cinco filhos e precisar se estabelecer em outro estado… quantas não enfrentam coisas parecidas e até piores? A brasilidade também se faz presente nesses detalhes, que causam a identificação mais genuína do cinema.
Se há, ainda, alguém que duvide da potência da arte nacional, mostrem essa obra. “Tudo em volta está deserto, tudo certo”. Nem citei as obras de arte que são as fotografias usadas na narrativa, a própria fotografia do longa e muito menos a trilha sonora. Apenas digo que as escolhas, que fugiram do imaginário óbvio, foram outro soco no estômago. Se deveria ter complemento melhor para este, não consigo imaginar soluções.
Corram para os cinemas.
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